A flor e o egoísta
Ao ver tão linda flor imersa em vasto matagal, confesso, uma lágrima umedeceu as esquinas dos meus olhos. Salivei. Me apeteci. Lambi os lábios tenteando lhe orvalhar. Tenteei. Intuito singular de lhe ser estado atmosférico. Precipitação e temperatura. Invejei o tempo. Não sou o tempo. Falhei. Melhor riscar para o outro lado. Buscar outros meios. Mudar de direção. Mudei. Mudei para o orgânico. Invejei os teus polinizadores. Goelei ao divino por minha metamorfose. Quem sabe? Não custa tentear. Na beira do precipício, remoto. Alô! Alô! Alô! Quem sabe? Quem sabe assim tatearia tamanha formosura? Abelha, vespa, formiga, qualquer ser capaz de alcançar o breu do seu receptáculo. E, se assim fosse, pagodearíamos em sua antera. Disrítmico, me lambuzaria do teu pólen. E me lixaria à evolução. Ludibriaria uma coevolução de dois indivíduos unigeracional. Que se lasque o fruto! Por suas zonas viveria. Seria a placa de "proibido a entrada". Se afastem forasteiros. Só eu e você. Um ser junto de outro ser. Sermos, seríamos. Já sou ser. Sou o próprio ser cheio de ego. Defeitos e egos. Sou ser cheio de ego e egoísta. Egoísta e cabeça dura. Não versaria as bandas de outra flor. Jamais. Lhe guardaria, em guarda, para ser algum ter tal privilégio. No pretérito perfeito fui imperfeito. Num breve instante, confessei o egoísta que sou. Talvez por isso o divino não atende os meus ecos. Alô! Alô! Alô! Em vão. Como eu poderia privar uma flor, tão linda flor imersa em vasto matagal, de ser flor se isso é o que lhe cabe? Embuste!
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| Clitoria ternatea. |

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