Carta aos vivos
Eu verso a morte porque a temo. No avesso, não verso, me lixo. Ao tempo que a temo porque me assombra, talvez neste avesso também afronte um fato. Fato é, não temo o fim, temo o meio. Passado o tempo entre o estar vivo e o morrer, será passado. C'est fini. Isto posto, alheio ao tempo que ainda tenho, vivo enquanto é tempo. Depois, no fundo do poço, é posto que estarei indisposto. Não por falta de querência. Estará mais para falta de existência.
Ao ponto que o tino me norteia; tino alheio, norte alheio. Para uns, o fim é a incerteza do fim. Para outros, a incerteza do início. A mim, uma incomprovável certeza: fim. Fato é, dias sim, noites também, a morte bate à minha porta e alarma: o vindouro perecer se aproxima. Afinal de contas, fazendo as contas e tirando a prova dos nove, hoje é o dia em que o tempo se atreve a me envelhecer. Bem como ontem também foi. E amanhã também será. E depois de amanhã. E depois. E depois. O diário me faz falto. No fim do resta um, definho dia após dia onde o resto é minguado. Em divisão de resto diferente de zero, definho com o resto que me resta. E o que me resta é ser, até que eu, ser, deixe de ser um ser.
Em estado finado, o corpo se embrenha à putrefação. Parece asqueroso. Talvez seja. Mas, partindo do pressuposto de que quem jaz já não sente, o corpo de quem jaz verte vertigem apenas aos sentidos de quem vive. Isto posto, posto o meu corpo morto, ignore-o. Avesso a velar um defunto, maior valia valer-se da vida que ainda lhe resta. Sepulte um rito em oposto a um corpo remoso; e para o deleite dos vândalos, que o meu epitáfio seja uma página em branco. Quando o definhar virar findar, se vier a calhar, brinde o ser que fui e que deixei de ser. Se carecer um choro, chore. Tudo bem. Por fim, sem ser imposto, está mais para derradeiro rogo, tal qual Brás Cubas, peço: brinde os vermes que ceiarão do meu corpo morto. São eles que lhe darão nova função. De resto, é resto.
![]() |
| Cravo-de-defunto. |

Comentários
Postar um comentário