Duas doses de nada
Aos que merecem, duas doses de nada. Obrigado por nada. E de nada por qualquer coisa. Só não esperem fogos e festejos por cumprirem nada mais do que a obrigação. Sem honra ao mérito pra vocês. O mínimo não lhes renderão penduricalhos. E não o cumprir não é opção. Tal porque, escantear privilégios é miudeza perto de viver odisseias a miúde. Sair de casa, entrar num ônibus, trabalhar, ir a um bar, tomar um chope, quem sabe alguns chopes, dizer um oi ou nada disso, ficar em casa mesmo. Quintas-feiras pra uns, martírios diários pra outras. Ingrato desejo de ser e estar. Talvez conjugações banais pra você. Pra elas, Damas de Ferro. Aprisionadas por deuses falocêntricos, regidas por dogmas falocêntricos, vivendo em um mundo que gira em torno de um falo, enquanto os organismos se desorganizam em dois grupos: aqueles que perfuram e aquelas que sangram até a morte por ser criatura.
Você não sabe, não tem a mínima noção, o que é ter o cu na mão, entregá-lo a Deus e, ainda assim, se foder. Eu conheço quem sabe. Eu conheço quem têm essa sensação diariamente. Eu conheço, mas nunca senti. Provavelmente nunca sentirei. Mas não escarro nas chagas alheias. Compreensão é dever de casa. Questão de sobrevivência ou morte. Dito isso, leve o seu gado para pastar em outros gramados. Comportamento de rebanho não legitima as bolas-fora, as lâminas adentro e o sangue escorrendo. Apesar do pesar das diferenças, a gênese é a mesma. Um mero óvulo fecundado por um mísero espermatozoide. Igualzinho àqueles despejados no vaso após uma punheta. E a porção que lhe sobra não lhe torna especial para um caralho. Um X aqui, um Y acolá. O lado que lhe coube faz de você baladeira ou alvo. Atirar a pedra é opcional. Entre mortas e feridas, preferiria estar longe, ileso, mas tem peleja que não se tarda. Optei por regar lianas ao invés de regalias.
Por fim, aos que não merecem, aqueles que não querem entender ou fingem não entender, serei curto e grosso: que o Diabo lhes carregue. E ele há de carregar. Discípulos de São Tomé, não queiram pagar pra ver. Digo por consciência de causa. Fui até a morada do Sete-Pele, quase beijei sua mão, mas uma compadecida intercedeu por mim. Uma amazona que não devia e nem precisava me salvar, mas me salvou. Montada em seu burrico e armada até os dentes com o seu discurso, me tirou de lá puxando pelas orelhas. A ela devo a minha devoção. Por ela fui arrebatado. A partir disso, virei seu próprio Sancho Pança, disposto a enfrentar quantos moinhos de vento forem necessários. Fato ingrato, serão muitos e esses machucam. Um mundaréu de gigantes que opta por se lixar. A esse, que chame os quintos de lar.
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