O liador

Na primavera, quando dúvidas não me escasseavam e certezas jorravam de baldes de respostas açodas, a rebeldia sem causa me norteava. Era a idade em que o cagar e andar não valia como Registro Geral. Era preciso de mais, muito mais, para ser quinhão. Era preciso cagar e pisar na própria merda — preferencialmente descalço — como prova de juízo. Nessa idade de muito achar, mas, de fato, pouco atino; sobre algo me sobrava acurácia: excelência na arte de liar. Dizem que a prática leva à perfeição. Então liei. Liei com infinda variedade de ervas. Liei com infinda variedade de sedas. Liei até cansar de liar. Liei até com o que não deveria ter liado. Enfim, liei. Num dia ranzinza, liei o pitu dichavado nas páginas do livro sagrado. Para ser mais preciso, nas páginas do Livro da Revelação, o Apocalipse de João. Camarão-vermelho que era, o sol do semiárido brasileiro lhe rendera inúmeros cristais. Era tanto lume que invejava a própria noite do Cerrado. Mina sem igual exigia zelo, e o tive. Liei com paciência, bem liado, destro. Ao findar, peguei a liamba e levei até o pito. Peguei uma caixa de fósforo, a abri e de dentro dela retirei um palito. Risquei o palito de fósforo na sílica, resultando em uma chama. Aconcheguei a chama até a ponta da liamba, puxei o ar para braseá-la. Braseei. Dei verve a liamba ungida. Traguei e soltei a fumaça contemplando-a enquanto tomava os quatro cantos do aposento. Naquele momento, naquele exato instante, me senti derrubando os alicerces da Capela Sistina. Findando os dogmas de uma igreja secular. Me senti o semeador do caos que acabara de se libertar das amarras da fé. Senti os quatro cavaleiros do Apocalipse entrando em meus pulmões e sendo lentamente absorvidos pelo meu corpo. Tal qual num rito dos antigos tupinambás, absorvia a força dos meus inimigos os consumindo. O herege dos hereges. Mas, a minha primavera havia de passar. No retrovisor vejo certezas de outrora acolhidas em um mundaréu de dúvidas. Apesar disso, algumas poucas verdades se sustentaram. Entre acertos e desacertos — e uma mediana da qual não me orgulho — um fato, vez ou outra, martela a minha cabeça com grande pesar: antes tivesse liado tão saborosa liamba em papel de melhor procedência.


O fim da festa.
O fim da festa.

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