O mito de Lázaro

O clima fúnebre impregnava o ambiente. Todos os presentes cantavam cânticos para guiar a alma do defunto para um caminho de paz e luz. Aos prantos, a viúva era consolada pela família. Ainda incrédulos, parentes e amigos fizeram questão de comparecer e dar o último adeus a um velho camarada que, de veras, deixará saudade. O caixão estava posicionado bem no meio do cômodo. Ao lado dele, alguns candelabros de aço suportavam velas acesas que penumbravam o lugar. As muitas flores aliviavam o cheiro da morte. Os idosos se sentaram nas poucas cadeiras disponíveis. Os mais jovens suportavam o cansaço e a tristeza de pé. Café e biscoitos ajudavam a manter os convidados acordados madrugada adentro. 

— Quem diria? Lamentou um.

— Ainda moço. Lamentou outro.

— Pois é! O um que iniciou as lamentações concordou com o lamento em forma de resposta do outro. 

Tanta vida pela frente e um escorregão idiota colocou tudo a perder. Ao menos era o que parecia. 

— Morto se mexe? Perguntou um terceiro. 

Algum espertalhão explicou que sim, que espasmos em defuntos são normais. São os chamados espasmos cadavéricos e que geralmente ocorrem quando as células do corpo do defunto morrem de forma gradativa, ao invés de imediata, podendo resultar em contrações musculares involuntárias. O espertalhão provou por a mais b que tudo não passava de um fenômeno natural e que estava tudo nos conformes com o morto. Alguns convidados respiraram aliviados após concluírem que o defunto que eles velavam não se tratava de um zumbi, ou algo do tipo. Mas o mesmo terceiro que acabara de fazer o questionamento relacionado aos movimentos dos defuntos retrucou.

— Mas, o defunto está tirando o algodão do nariz.

Sem pestanejar, a vó do defunto, uma senhora quase centenária, pegou um dos candelabros dispostos ao lado do caixão — o primeiro objeto matante que encontrou a sua frente —, derrubou as velas no chão e desferiu uma sequência de pancadas na cabeça do ex-defunto que, tão breve, voltou à sua posição de defunto. Assustados, os presentes se entreolharam sem entender o ocorrido. O silêncio fez-se pleno no lugar. Em seguida, todos direcionaram os olhares ao corpo no caixão como se esperassem as cenas de um próximo capítulo. Emfim, um menos covarde se dispôs a verificar a pulsação do homem velado. Após a confirmação do óbito, o velório seguiu normalmente. A senhora salvou o evento.


A arma do crime: legítima defesa.
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