Lamento do malandro

Embuste de vida fácil, de despertar sem galo e sem grilos. A quem a mesa sempre esperou posta. Que nunca descascou uma batata e, quem dirá, os abacaxis que a vida traz. Se o tempo lhe rendeu algumas rugas, quem as entalharam foram o Vasco e o jogo do bicho. Destino danado que não lhe tirou a sorte grande no milhar. 

Filho de desgraçados quaisquer. As maiores riquezas de seu vocabulário são as palavras pendura e fiado. Vive a ladrar que a busca por trabalho lhe fadiga até em pensamentos. Por tal, seu sustento sai dos bicos e das falcatruas que lhe caem no colo. Herdara do pai o gosto pela preguiça e o credo pela malandragem. Dele também herdara a fraqueza por um rabo-de-saia.

Fizera de seu falo escoteiro. A preguiça que lhe sobra para a labuta, lhe falta para o cortejo. Andou arrastando asas a um mundaréu de outras que não caberia listar. Esqueceu-se do teto de vidro que lhe cobria. Enquanto se envaidecia na boêmia, largara a sua senhora em casa com as novenas e as novelas. 

Com a oficial, as derradeiras carícias ficaram nos tempos dos cortejos. Após assinados os papéis, o romance minguou a nada. Casa arrumada, comida quentinha e roupa lavada, passada e engomada. A vida da esposa se resumia a servir. A mulher se esquecera de como era sorrir após tanto coadjuvar nas brumas de um traste. 

O desgraçado lhe deu a alcunha de trabuco desleixado, mas acontece que a pobre tinha lá os seus caprichos; e havia carijó doido para ciscar em seu terreiro. Um jovem letrado, recém-chegado ao bairro, se encantara pela beleza da mulher, mesmo capeada por de trás de um rosto borocoxô. 

A paixonite entre a senhora e o moço pintou e andou no cotidiano: um aceno com o chapéu, um cumprimento de bom dia, conversas sobre o tempo ao pé da janela, flores e chocolates, e longos risos desengatilhados sem grandes motivações. Sempre com muito decoro. Ele daqui e ela de lá. Ela se engraçava, mas, não dava condições. Fato é, os flertes resgataram a autoestima da mulher. Reaprendera a sorrir. Recuperara a formosura.

Numa quinta-feira, não uma qualquer, a mulher fora à biboca da esquina comprar mantimentos para um jantar especial em festejo às bodas do casal. Entre “boas tardes” e “olás”, se surpreendera com o desgraçado do marido se engraçando com uma cabrocha que faz ganho nas esquinas da cidade. Em pleno coreto. Em plena luz do dia.

Sem perder o recato, a mulher pendurou o que tinha que comprar e rumou à casa do moço vizinho. Bateu à sua porta e logo fora atendida. Ela adentrou a casa e fora direto à cozinha. Juntos cozinharam, se empanzinaram, se embebedaram com uma boa cachaça e um vinho de gosto duvidoso. Riram à beça e, enfim, vadiaram nos prazeres da carne.

Quanto ao mentecapto ordinário que não vale o que bichano faz na caixa de areia, se hoje carrega na cabeça o peso de dois grandes córneos, é porque merecera. Dizem que chumbo trocado não dói. Ao menos não deveria. Agora o malandro vive nos botecos sujos da cidade, onde bebe fiado a saudade da esposa.


Malandro.
Malandro. 

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