Memórias póstumas de um zero a zero

A duras penas vi meus sonhos empatados como naquele Bangu e Olaria no campeonato Carioca de 64. As metas dos arqueiros Ubirajara e Ari não foram vazadas, e o pouco mais de mil espectadores que foram ao estádio Moça Bonita naquele fatídico 17 agosto ficou a ver navios, assim como cá estou. Tal qual um urubu-rei escaldado cuja majestade fora perdida num verdadeiro “Ai, Jesus”, passei a andar com os pensamentos sem rumo, num deep profundo, como se desse azul não coubesse mais escuro. Mas sempre cabe mais. Bastaram três gotas, apenas três gotinhas, pro meu azul virar um breu total. Ficou tudo tão escuro, mas tão escuro, que à minha vista egoísta só restou a ponta do meu nariz avantajado. Resultado, tropiquei, me estabaquei e quase voei pela boca d'um poço qualquer. Ao ver buraco tão fundo, pensei com os meus botões: escuridão por escuridão, melhor no fundo do poço. Quiçá por lá teria um tiquinho de sossego. Resolvi provar da maçã de Nilton. Provei. Confesso, não gostei. Achei farelenta. E se tem uma coisa que eu não gosto, é de maçã farelenta. Mas, gosto ainda menos de destruir comida. Por tal, dei cabo dela entre as alturas inicial e final de minha queda livre. Ao enfim findar o meu outono, olhei pra cima com a esperança de que a lua me guiasse à primavera. Me decepcionei. Nem todo dia é dia de lua. Em poço fundo, posto findo meu antigo mundo. Ao menos encontrei um cadinho de alento na posição fetal. 

Forrado de lama até as tampas, me sentia justo e sem a carência d'um auto-Cristo pra assumir os meus pecados. Meus ombros clamavam por desafogo, mas o meu credo de outrora dizia que a pecados fiados não se herda débitos. De resto, a mim, eram a minha sina e a minha angústia. E já me sentia conformado com isso. O poço deixou de ser um qualquer e passou a ser o meu poço. O seu fundo virou o meu ninho. Prateleiras repletas de livros que nunca li — e que talvez nunca leia —, porta-retratos expondo fotos de pessoas que nunca vi e vasinhos com plantas há muito tempo mortas refletiam o meu mood pra decoração. E foi justo no assentamento do costume que — mesmo sem solicitar — enfim, um mártir pra chamar de meu deu o ar de sua desgraça. Sacudiu o meu mundinho tedioso tal qual um bagre espalha sedimentos pela água enquanto fuça o fundo d'um lago à procura do que comer. Antes de mais nada, perguntei ao meu mártir o porquê de sua vinda, posto o fato de não ter solicitado ajuda alguma. Ele não gostou da minha afronta e disse que viera para me salvar. Agradeci e retruquei a falta de carência. Meu mártir insistiu. Afirmou que aquela era a sua incumbência e, como um bom democrata cristão, me tiraria daquele lugar por bem ou por mal. Sem forças para zangas desnecessárias, ainda mais com um mártir tão bem-intencionado, acabei concordando com a minha salvação. Enfim satisfeito, ele prometeu o seu breve retorno e se foi sem sequer lavar a louça ou dizer um mísero até logo. 

Passados sete dias e sete noites, meu mártir voltou para, finalmente, efetuar o meu resgate. Consigo, trouxe um bom bocado de testemunhas; com direito a imprensa, banda marcial e tudo mais que um resgate não quisto tem direito. Lá de baixo, eu clamava o meu sossego de volta enquanto ouvia o circo se armando. Como se quisesse me pegar desprevenido, meu mártir enfiou a cabeça pela boca do poço, me avistou prevenido, me serviu de um sorriso falso e perguntou como eu estava me sentindo. Saí de minha posição fetal, ajeitei o corpo em sentado e expressei o meu mais puro e sincero sentimento. Infortunadamente eu estava puto, uma vez que aquela confusão toda havia mandado o meu sossego para as cucuias. De imediato a multidão de espectadores me vaiou. Uma pequena parte mais revoltosa me chamou de ingrato. A eles me lixei. Meu mártir, tentando manter o clima de festejo, solicitou o imediato silêncio do povo e, assim que conseguido, anunciou o início de meu salvamento. As vaias deram lugar a aplausos empolgados. Então, como numa deliciosa tortura chinesa, acompanhei o meu mártir descendo lentamente pelo poço enquanto ele narrava às câmeras a sua minguada odisseia. Já visto o meu grilo-verde onde Judas havia perdido as botas, e junto dele a minha vida em sossego, perguntei o porquê de tanta enrolação. Meu mártir respondeu que estava indo o mais rápido o quanto podia. Bufei de tédio e resolvi jogar uma partida de campo-minado enquanto aguardava a parte que me cabia. Assim que enfim alcançado, eu estava emputecido a um ponto que abdiquei de minhas crenças e aproveitei a deixa para aliviar o peso de meus ombros apoiando a minha cruz nos ombros de meu mártir, como se a ele pertencessem os pecados. Ele titubeou um pouco de início, mas se lembrou das câmeras e, tão breve, demonstrou aceitá-la de bom grado. O povo, entusiasmado com o suposto genuíno altruísmo de meu mártir, o aplaudiu enquanto gritava o seu nome. 

Por fim — e enfim —, com muito esforço, a luz do dia me foi devolvida no instante em que fui retirado do fundo do poço escuro. Estranhamente ainda me sentia num breu total. Enquanto tentava acostumar os olhos àquela claridade toda, ouvi o aplauso do povo celebrando o meu retorno à superfície e o sucesso da operação. Envergonhado, abaixei a cabeça para evitar contato visual. Com pompa de herói, meu mártir saiu do poço logo em seguida. Em suas mãos, erguia a minha cruz como se fosse o seu troféu. O povo estava prestes a ovacioná-lo, mas quando viu o tamanho da cruz e os pecados que ajudaram a entalhar a madeira, em uníssono, iniciou uma vaia ensurdecedora. Era uma cruz pequenininha. Sem graça. Havia um pessoal pelas redondezas que, sim, carregava uma cruz de respeito, graúda. Mas, ainda assim o povo se encasquetou com a minha. Como bem diria a minha mãe: macaco senta em cima do rabo dele e ri do rabo dos outros. Revoltosas, as pessoas xingaram e ofenderam a mim e a todas as minhas gerações — passadas, presente e futuras. Enquanto eu via as suas cruzes aumentando de tamanho, objetos eram arremessados para todos os lados, mas, principalmente, em minha direção. Enfurecido, o povo ordenou a minha volta pra'quele buraco escuro. Confesso, não entendi bem o motivo. Mas, afrontoso que sou, agradeci com um aceno rápido, virei as costas e fui embora procurar outro poço mais longe pra chamar de meu. Saí de fininho, escapuli pela tangente. Com meu mártir, deixei a minha cruz e o julgamento popular onde ele responderia pelos meus pecados por mim. E o povo, como de praxe, o condenou e o arremessou num moedor de gente. Esqueceram que mártires são feitos de carne e osso, voou sangue pra todos os lados. Sangue quentinho, recém retirado do corpo. Era o fim do meu mártir. Ou melhor, seria o seu fim. Seria porque, quando quer, o povo sabe assumir os seus erros; ao menos parte do povo. A parte arrependida foi tecer com o papa a beatificação do mártir que pereceu assumindo os meus pecados. Resultado, o mártir subiu de patente e virou santo. Me mordendo de inveja, afinal de contas, os pecados eram meus, também resolvi tentear uma patente de santo. Me joguei no moedor de gente pra ver no que dava. Voou sangue pra todos os lados. Sangue quentinho, recém retirado do corpo. E ninguém se importou. Não deu em nada. Em necas de pitibiribas. E esse foi o meu ridículo fim. Resumo da ópera, em terra de vida eterna, vira herói quem sabe morrer.

Urubu-rei.
Urubu-rei.

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