Em boca fechada não entra mosquito

Quis devolver solidão, não consegui. Não sou desses. Sou daqueles. Daqueles que o silêncio a dois incômoda. Sou sentimento a flor da pele. Sou praticamente todo pele. Fiz das tripas coração. Coloquei os buchos pra fora. Desembuchei tudo o que achava que sabia. Caguei! Descobri que só sabia sobre a parte que me cabia. Pouco, ou quase nada, me cabia. Disse tal parte, disse o que não devia. E agora é tarde, como bem dito por Luís Vaz: sem paz, Inês de Castro jaz rainha. Confesso as fraldas frouxas. Podia ter me calado. Devia ter me calado. Talvez o silêncio não seja tão ruim quanto me parece. Às vezes, em silêncio, o nada vira um estupendo singular. Pegue dois pães franceses duros. Agora, pegue dois garfos. Coloque os pães e os garfos sobre a mesa. Puxe uma cadeira e sente-se à mesa. Certifique-se de que os pães estejam com os fundos virados em direção ao tampo da mesa. Feito isso, alinhe os pães perpendicularmente garantindo que uma das duas extremidades de cada pão forme um ângulo de 90 graus com o seu corpo. Entre o penúltimo e o último quarto de cada pão, sendo o primeiro quarto aquele mais longe do teu corpo, espete um garfo de modo que os pães remetam a grandes pés e os garfos, pequenas pernas. Ou seja, os garfos espetados devem formar um ângulo de, aproximadamente, 90 graus com a parte de cima dos pães. Agora, com a sua mão direita, use as pontas dos dedos para segurar a extremidade não espetada do garfo. Faça o mesmo com a mão esquerda. Segure as falsas pernas mantendo-as como se estivessem de pé sobre a mesa. Feito isso, posicione as falsas pernas lado-a-lado e faça movimentos simulando o bailar de um sapateado. Ah, é claro! Não se esqueça de fazer tudo isso em silêncio, sem dar, sequer, um pio. E sem gracinhas, por favor! Até mesmo um palhaço precisa de seriedade. Se está ao seu agrado ou não, paciência. Coloque um sorriso tímido no rosto e role as pedras. Finja normalidade, mas cuidado para não exagerar. Normalidade demais é demais. Ótimo. Agora vá até a geladeira. Sirva-se de um copo d'água. Se hidrate. Se hidratar é bom. Aproveite e confira os mantimentos que lhe estão em falta. Faça uma lista de compras. Arroz, farinha, feijão, ovo e [...] foda-se! Um prato-feito de foda-se. Foda-se a você! Foda-se aos seus! Foda-se a quem tiver que dizer: foda-se! Não! Não! Não! Assim não. Sem perder a compostura, por favor. Respira. Inspira. Respira. Inspira. Continue assim. Isso. Guarde o foda-se para os momentos propícios a um foda-se. […] Puta que o pariu! Pior que falar foda-se é bom para um caralho! E olha, vou te contar, ainda bem que o foda-se é de graça, se vendesse no mercado, eu estava fodido.


Cinema mudo.
Cinema mudo.

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