A lenda da cobra que mama

ATENÇÃO: conteúdo destinado a pessoas de NENHUMA IDADE.


De lá de longe. Lá pr'os lados do açude Carcará. Pr'essas bandas longínquas, pra lá d'onde Judas perdeu as botas, morava a família do Zé Seca-Pimenteira. Esposo, esposa e uma criança recém-parida viviam numa erma casa de taipa. Sem forro e sem reboco. Casa simples, de dois cômodos: o de cozinhar e o de dormir. As necessidades faziam no mato. E vizinhança mais próxima, só a horas e mais horas de andada a pé.


O sucedido se sucedeu numa noite de sexta-feira do dia 13 do mês de agosto. Tal qual farol, naquela noite, a lua cheia lumiava as esquinas solitárias do sertão. Da varanda, o esposo olhava pr'o céu como se conversasse por telepatia com o divino. Rogando por aquilo cuja voz não podia orar. Pensava na vida e na morte. Na varanda, o esposo tentava desfadigar a labuta do dia com uma boa dose de água-ardente. No rádio de pilha, o noticiário o avizinhava do resto do mundo. A hora antes da hora de dormir era a hora de “A Hora do Brasil”. 


E, como sempre há de ser, a hora passa. E o tempo segue. E o que começa há de acabar. E o que ainda não começou há de começar; caso contrário, nunca será. Mas, se ainda não é, ainda poderá ser. No caso do noticiário, começou e acabou. Ao findar do noticiário, ao esposo ainda coube mais uma dose de cachaça e umas duas modas. Naquela noite, aquela noite quente do sertão, ao tempo que as vozes e as cordas de Tião Carreiro e Pardinho pareciam anunciar que a nascente dos olhos era da cria do casal, a paciência do pai da cria ia para as cucuias. 


No cômodo de dormir, quatro paredes. Na parede de quem entra, um batente sem porta; apenas um vazado ligando dois cômodos. Em outra parede, à esquerda de quem entra, uma rede ainda a ser esticada. À direita, uma janela de madeira. Encostadas na parede que dá de frente à entrada do cômodo: uma cama e, ao seu lado esquerdo, uma mesa de cabeceira. Sobre a mesa de cabeceira: um terço, uma cumbuca d'água, um copo com dois dedos d'água e um lampião aceso. Na gaveta da mesa de cabeceira, um exemplar da Bíblia e um velho punhal de prata com o cabo de marfim. Talvez esse punhal fosse o único bem material de algum valor que a família possuía. Sobre a cabeceira da cama, pregada na parede, a imagem de Nossa Senhora das Dores; a virgem das sete dores. A família era devota de Nossa Senhora das Dores. Na imagem, a representação de um punhal perfurando o doloroso e imaculado coração da santa.


Sobre a cama simples, um colchão velho coberto por um lençol furado. Sobre o colchão, a mãe quase jacente tentava aleitar a sua cria que seguia desatando o berreiro. Na cama, o corpo moído da mãe cobrava o preço de um parto recente e de noites mal dormidas. No cansaço, a mulher lutava contra o sono. A duras penas mantinha as clareiras de seus lumes. 


E, do lado de fora, a privação do silêncio enervava o pai. Subiu, as tampas, o volume do rádio para não escutar o choro de sua cria. No rádio, uma moda acabou e outra se iniciou. Abafada, a moda que se iniciou soou como um embalo de ninar. Na composição da moda, Hemitartarato zolpidem. Dorme neném. Dorme mamãe. Na peleja contra o sono, a mulher saiu derrotada. E, como se a dormida fosse tal qual bocejo, sua cria também silenciou-se. Na casa, enfim, paz. Na varanda, o barato da cachaça se uniu ao cansaço da labuta e ao raro instante de sossego. Na varanda o esposo estava, na varanda ele adormeceu. Dorme neném. Dorme mamãe. Dorme papai. Todos caíram em sono profundo. 


De lá do céu, a lua cheia ainda lumiava as esquinas do sertão. De lá do céu, o canto fúnebre de uma rasga-mortalha rasgou o verbo, o tempo e o espaço anunciando uma iminente tragédia. O canto fúnebre da rasga-mortalha também rasgou o breve momento de paz naquela erma casa de taipa. Os ouvidos desligados do homem logo se atentaram após o assombro com o canto da mensageira do mau-agouro. Na varanda o esposo estava, da varanda rumou ao cômodo de dormir. 


Na entrada do cômodo de dormir, o homem aliviou-se desafogando o ar aprisionado em seus pulmões. Breve aos olhos, esposa e cria dormiam em paz. Parecia que a rasga-mortalha se enganara de endereço. Ainda aliviado, o homem se beirou à cama para acomodar melhor a esposa e a cria, dar-lhes cheiros de boa noite, apagar o lampião e esticar a rede para se deitar. O alívio do esposo foi de chegada, mas breve perdeu-se na passagem dos segundos. Seu olhar fitado fitou o que lhe derrubou o queixo da face. A cena que testemunhou lhe deixou bestializado. Tanto três onde mal cabem dois. Na cama simples: sua mulher, sua cria e uma serpente alvinegra. 


O que o homem viu foi a morte. A morte trajava a pele de uma serpente alvinegra. A cauda da serpente aguelada pela boca do bebê que jazia roxo àquela altura; enquanto o animal, enrolado no pescoço da mãe, se deleitava do leite materno direto do seio direito da pobre mulher também jazida. Em transe, o esposo abaixou o butico que lhe cobria as partes, colocou o falo enrijecido e veiudo pr'a fora, o segurou firme com a mão direita e se masturbou enquanto testemunhava àquela cena bizarra. Se masturbou como se os movimentos de rotação e de translação tivessem cessado em prol de sua vergonha em lhe faltar vergonha. Como se na Terra não existisse mais o tempo e o pecado. Enojada, pontualmente, a lua se amoitou por de trás de nuvens que mal existiam no céu naquela noite. 


O homem deu de ombros à rasga-mortalha, que seguiu cumprindo a sua função de anunciadora do mau-agouro cantando sobre as telhas da casa enquanto ele continuava se empunhetando tal qual a um adolescente cheio de espinhas na cara que, sozinho em casa, se masturba enquanto assiste a um filme pornô. Talvez o mais bizarro filme pornô já imaginado por algum ser. Ou, talvez não. O homem seguiu se empunhetando até explodir em júbilo e contentamento e, enfim, soltar um grande gemido de satisfação. Foi se pôr em alerta outra vez apenas quando viu o seu gozo espalhado pelo chão do cômodo de dormir. Pela culpa e pela vergonha o corpo do homem foi tomado. 


Já não era sem tempo, o homem pegou a cobra pela cabeça, a desenrolou do pescoço da mulher morta, depois a segurou firme pelo rabo e o retirou da boca de seu filho morto. Prendeu a cabeça da cobra junto ao chão e, com um único pisão descalço, a esmagou mortalmente. Da ferida da cobra escorreu suas entranhas e o leite materno ao qual ela se deleitava. O leite, misturado às entranhas, se espalhou pelo chão e logo coalhou. 


Quanto ao homem, agora sem família, sem honra e sem razões para trilhar o seu destino, abriu a gaveta da cômoda, pegou o punhal que lá estava e, com sua lâmina afiada, se perfurou na barriga por sete vezes. Talhou o seu bucho liberando suas tripas ao externo de seu corpo. As tripas do homem se misturaram ao seu gozo, às tripas da cobra e ao leite coalhado de sua mulher. A tragédia se fazia finda. Esposo, esposa, uma criança recém-parida e uma cobra alvinegra; todos perecidos no cômodo de dormir. O velho rádio do lado de fora seguiu ligado, a porta da frente seguiu aberta, o copo seguiu com dois dedos d'água, o lampião seguiu aceso e a rasga-mortalha se foi.


Cobra que mama.
Cobra que mama.

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