Ao padre, com carinho

Um dia direi ao padre Ernesto, com quem costumeiramente fumo um cigarro e tomo um vinho por detrás da igreja: 

— Padre, sou ateu!

Não satisfeito, completarei: 

— Sou entregue aos vícios, padre. Da meretriz quero o gosto e o corpo. Entre as Marias, predileção à Madalena. Do carteado quero o gozo e o troco. 

Dos outros vícios, como já dito, a gente costumeiramente compartilha n'outra cena. 

E se, por um acaso, o padre vier a se queixar; retrucarei:

— À obrigação da rima, verso livre. À anarquia, regras. Ao ateu, deus. 

Afinal, do que é feita a descrença senão a crença. 

À existência d'uma, a existência d'outra. À inexistência da outra, a existência d'uma. 

No credo não creio, mas, pouco me importa se crês tu. 

E se a birra do padre firmar, de imediato aviso: irei com meus vícios pr'outras bandas. 

Provavelmente um bar.


INRI.
INRI.

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