Dois pontos: um pecador convicto
Em tanto — talvez quanto — disse-me-disse, me disseram um tanto.
Disseram tanto que diabo não pode, ao invés: há de ser santo!
E eu, que sabia que não era santo, me caguei!
Fiz das tripas coração e dos ovos a minha estrada.
Fui tentando, e falhando. Rachando uns ovos aqui. Esmagando outros acolá.
Enfim, falhei rudemente. Não dava pra esperar outra coisa de uma criança cuja memória não era bem uma memória. Talvez uma vaga lembrança.
Você acha mesmo que eu lembro os dez mandamentos de cor e salteado?
Você acha mesmo que um dia eu já soube?
Ave Maria? Pai nosso? Salve Rei? Credo?
Ave Maria e cruz credo!
Na prova pra santo, fui reprovado umas seis vezes. Talvez sete — sete é número de mentiroso. Todas reprovações por mérito e com louvor.
Mas persisti. Não queria dar o desgosto à minha mãe de ser a única criança do bairro sem diploma de santo.
No fim das contas, capenga, passei.
Nas costas largas, é bem verdade. Graças à boa influência na igreja.
Você, por um acaso, sabe com quem está falando?
Minha mãe é assim com o Homem! E com Seu filho também.
(Amém nós todos!)
Ela é chegada dos santos e das santas. A mulher tem moral com o divino. Não é qualquer uma, não!
Acho que perdi o fio da meada. Me enrolei mais do que devia. Talvez porque enrolei mais do que devia.
Retomando.
Passei na prova pra santo graças à influência de minha mãe, que tem nome de santa — mas essa é uma outra história.
Passei, mas, passei sem vocação. E sem vocação não dá pra ser santo.
Enfim, resumindo: larguei.
Agora, nem diabo, nem santo. Humano.
E o vento foi soprando.
O Zéfiro sentiu a minha barba crescer.
E, um dia, sem mais nem menos, me disseram: o amor é uma mentira criada por Deus!
Uma mentira para aliviar a vida dos humanos.
Uma vida sem sentido e de certeza única: a morte.
Agora, partindo dos pressupostos: i. deus existe, ii. mentir é pecado e iii. amar é uma mentira. Podemos assumir, sem medo de errar, que: amar é pecado.
Sendo assim, também seria verdade que o meu ser é pecado. Visto que peco: aos ecos.
Sou descendente de Eva, filho da maçã e mensageiro da cobra.
Peco ao falar e ao me calar.
Peco ao me vestir e ao me despir.
Peco, principalmente, ao sentir: pois amo.
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| A maçã: podre! |

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