Memórias de uma primeira comunhão
Um dia me lembrei do padre Sano. Acho que era Sano o nome dele. O padre Sano foi o padre da minha primeira comunhão.
Na verdade, não me lembrei exatamente do padre Sano. Me lembrei de um episódio com o padre Sano no dia da minha primeira comunhão.
Acho que, na verdade, me lembrei primeiro da minha primeira comunhão e, depois, do episódio com o padre Sano. Mas, no frigir dos ovos, me lembrei.
Me lembrei, e lembro como se fosse ontem. Eu estava cagando de medo. Com o cu na mão. Me cagava porque estava prestes a enfrentar o confessionário. Era o meu debute. Pouco mais de dez anos de pecados acumulados, e eram muitos. Muitos desses, a grande maioria, cometidos após os seis anos. Como eu aprontei!
A minha agonia foi longa, pois os formandos em Cristo eram chamados à confissão em ordem alfabética. Meus pais me escolheram um nome que se inicia com a letra V, uma das últimas do alfabeto. A ordem alfabética, às vezes, me frustra. Todo mundo lembra que A é de amor, B é de baixinho, mas ninguém se lembra de que é o V no abecedário da Xuxa.
Enfim, após uma longa demora, fui chamado. Com as pernas salseantes, mas sem a alegria demandada pelo ritmo caribenho, caminhei em direção ao confessionário.
O confessionário era uma espécie de caixote de madeira, ornamentado por hábeis carpinteiros, com uns dois metros de altura e um, um e meio de largura.
Seu interior, eu não deveria conhecer, visto que a entrada é permitida apenas a ministros religiosos da Igreja Católica, mas que eu conhecia, e o motivo era um de meus pecados a confessar.
Uma vez que tal pecado já foi confessado, não entrarei em detalhes. Mas não vejo por que não descrever o interior de um confessionário. Adianto-lhes: é sem graça.
Imagine-se no interior de um caixote com uns dois metros de altura e um, um e meio de largura. Nele, uma tábua de madeira, muito bem envernizada, colocada no lado do caixote que fica de frente para sua entrada, de modo que sobre a mencionada tábua uma pessoa consiga se sentar não muito confortavelmente.
Ao se sentar, a pessoa fica com a cabeça colocada de modo que ela, contemplando uma amplitude onde estão concentrados os quartis inferiores e superiores das alturas da população humana, fique lateralmente a uma espécie de tela cujos objetivos são: i. impedir que a pessoa que está no confessionário identifique a pessoa que está ajoelhada do lado de fora do confessionário e; ii. que tanto o confessador quanto julgador da confissão consigam trocar um diálogo.
Me ajoelhei, desconfortavelmente, em uma tábua de madeira milimetricamente colocada para que uma pessoa pudesse ajoelhar, contemplando uma amplitude onde estão concentrados os quartis inferiores e superiores das alturas da população humana.
Ajoelhado, como eu me ajoelhei, a cabeça da pessoa ajoelhada se encontra diante da já mencionada tela cujos objetivos são: i. impedir que a pessoa que está no confessionário identifique a pessoa que está ajoelhada do lado de fora do confessionário e; ii. que tanto o confessador quanto julgador da confissão consigam trocar um diálogo.
Retomando: enfim, chegara a minha vez de confessar. Me ajoelhei na dita tábua, pedi a bênção ao padre, como bem me sopraram minutos antes de me dirigir ao confessionário, e disse, sem mudar uma vírgula, o que também me sopraram minutos antes de me dirigir ao confessionário:
— Padre, eu pequei.
Eu sabia que era o padre Sano a pessoa que estava no interior do confessionário. Da mesma forma, o padre Sano sabia que era eu a pessoa que estava ajoelhada do lado de fora do confessionário. Ele me perguntou:
— Quanto tempo faz desde a sua última confissão?
Morrendo de vergonha, respondi:
— É a minha primeira vez.
Em seguida, ele me perguntou:
— Como você está se sentindo, como está a sua fé e quais pecados você gostaria de confessar a mim e a Deus?
Tive uma leve taquicardia. Me sentia incomodado naquele rito, desconfortável usando os trajes que ele exigia, minha fé estava numa crescente de desconfiança que logo daria lugar ao ateísmo e eu não queria confessar nada ao padre nem a Deus.
Tão breve a minha taquicardia surgiu, tão breve ela desapareceu. Me lembrei de quem estava do outro lado. Eu conhecia o padre. O padre me conhecia. Relaxei e respondi:
— Uai? Você sabe! Sou uma criança, ou um adolescente, sei lá. Faço as mesmas merdas que uma pessoa da minha idade faz.
O padre riu, disse para medir as minhas palavras e insistiu, mesmo sem demonstrar muita esperança, que eu me abrisse e confessasse os meus pecados.
Respondi que eu era a vigésima, talvez a trigésima, pessoa que passava pelo confessionário naquele dia, e que, provavelmente, a maioria das respostas foram parecidas. Uma punheta aqui, um palavrão acolá, algumas zombarias um pouco mais marotas, mas nada além disso. Então, sugeri que ele fizesse um recorte de gênero, tirasse a média, e para mim, essa penitência já estaria de bom tamanho.
O padre Sano riu novamente. Ainda rindo disse que eu não tinha jeito. Em seguida, ainda parecendo rir, me mandou rezar um Credo, três Ave-Marias e cinco Pai-Nossos.
Fui honesto. Disse que o Credo seria difícil, uma vez que eu não o sabia de cor. O padre Sano elogiou a minha honestidade, disse que era uma virtude, e disse para eu substituir o Credo por mais um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.
Até pensei em reclamar, dizer que eu estava trocando uma oração por duas, mas, sinceramente, achei que ainda assim saí no lucro.
Saí do confessionário com a certeza de que o padre Sano tinha plena convicção de que eu não iria rezar nem um de um, nem um de outro. Eu sempre me perdi no meio das orações.
Ao contrário do padre Sano, saí convicto de que rezaria quatro Ave-Marias e seis Pai-Nossos. Sem falta! Mas acho que o padre Sano me conhecia melhor do que eu.
Me bateu uma repentina fome, me lembrei do lagarto com batatas cozidas que a minha mãe faria para comemorar a minha comunhão em Cristo. Eu adoro o lagarto com batatas que a minha mãe faz.
Depois, meus pensamentos migraram para outras bandas. Comecei a me perguntar o porquê de estar pagando por pecados que não me arrependia. Peguei o pouco de fé que ainda me restava e fui tratar o assunto direto com Deus, visto que estava em sua casa e presumi que a comunicação seria mais eficiente. Infelizmente não obtive resposta.
Consequentemente, parei a minha penitência antes do primeiro terço da primeira Ave-Maria.
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| Sangue de rama. |

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