O misterioso mistério da caverna misteriosa — A saga do excêntrico milionário Ellon Jones
Após a publicação do texto “O misterioso caso da caverna misteriosa” — se ainda não leu, clique aqui —, vi meu celular ser bombardeado por uma chuva de mensagens de leitores revoltados com o caso sem solução. De mãos atadas, me vi obrigado a explicar que tudo não passava de uma grande brincadeira, fruto da minha cachola imaginativa. Mas a cachola imaginativa de alguns leitores também é fértil. Inventaram — ou se forçaram a acreditar — que o mistério era real.
A situação tomou proporções inimagináveis. Apenas um dia após a publicação, as redes sociais foram tomadas por jogos da velha (as famosas e famigeradas hashtags) relacionadas ao falso mistério. Durante a semana inteira, as hashtags ocuparam os trending topics do Twitter, e nada do que eu disse para contornar a situação conseguiu acalmar os ânimos das pessoas. Todos queriam solucionar o caso sem solução do tal mistério da caverna misteriosa.
Eis que, em uma bela manhã de sábado, meu celular toca. Do outro lado da linha estava um excêntrico milionário chamado Ellon Jones. Ele era mais um dos inconformados com a falta de solução do caso e estava decidido a resolvê-lo, conforme as palavras do próprio, independentemente dos custos, do esforço e do tempo que levasse. Mais uma vez, em vão, tentei explicar que se tratava de ficção, que nada daquilo era real. Ellon Jones não acreditou em mim. Disse que eu estava escondendo a verdade do mundo e que isso era um absurdo.
O milionário pegou seu jatinho, atravessou o oceano com destino à cidade onde resido e bateu à minha porta, encolerizado, tentando arrancar de mim alguma pista, alguma dica, qualquer coisa que o ajudasse a solucionar o caso. Já estressado com a situação e vendo meu espaço invadido por um doido que acredita em qualquer coisa que lê na internet, perdi a compostura e o mandei catar coquinho. Mas seu pouco conhecimento da língua portuguesa não colaborou muito. Ele entendeu que deveria “catar caquinhos”, me chamou de gênio e disse que iria procurar pequenas pistas no texto. Onde já se viu? Catar caquinhos?
Confesso que fiquei feliz por vê-lo finalmente me deixar em paz, mas esse, na verdade, era o início da saga de Ellon Jones na tentativa de solucionar o misterioso caso que não existia.
Após ler e reler o texto uma infinidade de vezes, Ellon Jones decidiu que deveria ir à Argentina procurar pistas sobre o tal Comandante Escobar. Desembarcou na capital e procurou uma agência especializada em turismo militar. Conheceu todos os memoriais de guerra, todas as escolas militares, absolutamente tudo relacionado às Forças Armadas Argentinas, mas não encontrou nenhuma pista sobre o tal Comandante Escobar.
Mas Ellon Jones é perseverante. Não é de desistir fácil. Foi até a maior universidade do país e procurou o maior especialista local em assuntos relacionados a guerras. Infelizmente — e obviamente — também não encontrou nada que pudesse associar ao tal Escobar.
Já desanimado, saiu da universidade cabisbaixo, incrédulo com sua falta de sorte, quando trombou com um estudante distraído pensando em seus exames finais. A trombada derrubou o material de estudo do rapaz. Envergonhado, Ellon Jones se desculpou e ajudou a recolher os papéis caídos. O estudante agradeceu, disse que estava tudo bem, mas percebeu que algo não parecia certo.
Por educação, o jovem perguntou se estava tudo bem com Ellon Jones. O milionário, tão triste, tão carente, tão desiludido, desabafou com o desconhecido e contou toda a sua história, toda a sua saga e toda a sua angústia relacionadas ao misterioso caso sem solução. E, por mais incrível que pareça, o rapaz conseguiu renovar as esperanças de Ellon Jones.
O estudante vinha de uma cidadezinha humilde no interior da Argentina e havia se mudado para a capital para estudar. Contou que, em sua cidade natal, havia uma praça criada em homenagem a um certo Capitão Escobar. Coincidência? Talvez.
Independentemente disso, Ellon Jones ficou incrédulo: só podia ser o Escobar da história. O rapaz passou o contato de seu primo, Pablo, dizendo que ele poderia ajudar o milionário a encontrar essa praça. Ellon Jones mal pestanejou, abriu um largo sorriso, abraçou o estranho, pegou o carro e seguiu estrada, direto para a cidade indicada.
O excêntrico milionário combinou com Pablo um local para se encontrarem, e assim fizeram. Ao longe, avistou um homem que correspondia exatamente à descrição de Pablo. Ele estava sentado em um banco, como se esperasse alguém. Ellon Jones se aproximou e ambos confirmaram suas identidades.
Após uma breve apresentação, Ellon Jones resumiu sua saga para Pablo e perguntou se ele podia ajudá-lo a solucionar o mistério da caverna. Ofereceu 200 pesos argentinos pela ajuda, mas Pablo queria mais: pediu 10 mil dólares. Ellon Jones não pensou duas vezes. Sacou um talão de cheques e uma caneta, preencheu o cheque, destacou-o com força e o entregou a Pablo com um sorriso no rosto.
Feito isso, perguntou onde ficava a tal praça que homenageava o Comandante Escobar. Pablo, ainda sentado no banco, esticou o braço e apontou para o outro lado da rua. Sim, a praça ficava do outro lado da rua.
Ellon Jones se enfureceu ao perceber que havia pago 10 mil dólares para descobrir uma praça que estava a poucos passos de distância. Pensou em partir para a briga, mas lembrou que nunca havia lutado na vida — sem mencionar que Pablo era muito maior do que ele.
Sem tempo a perder, Ellon Jones deu as costas ao argentino e atravessou a rua em direção à praça. Lá, avistou um busto no centro e imaginou que fosse o Comandante Escobar. Aproximou-se e leu a placa de bronze na base do monumento:
"Capitán Escobar. Primer capitán, camiseta 10 y máximo goleador del equipo en la ciudad."
Sim, caros leitores, a praça foi criada em homenagem ao primeiro capitão do clube de futebol da cidade. Nada de Comandante das Forças Armadas Argentinas, nada de Comandante Escobar.
Ellon Jones estava novamente sem pistas. Sua revolta foi tamanha que quis socar o busto, arrancar os próprios cabelos, tirar a cueca pela cabeça. Contudo, conseguiu se controlar. Respirou fundo, pegou o telefone e, adivinhem para quem ligou? Claro, para mim.
Contou-me toda a história que agora narro aqui e, mais uma vez, pediu minha ajuda. Cansado dessa besteira toda, pensei em mandá-lo para aquele lugar onde o sol não bate, mas temi que ele pudesse gostar. Então, mantive a compostura e resolvi entrar na brincadeira.
Lembrei do paredão de calcário onde as crianças "encontraram" a caverna e sugeri que Ellon Jones procurasse o Serviço Geológico da Argentina (SGA) para descobrir as regiões compostas por rocha calcária. Mais uma vez, Ellon Jones me chamou de gênio e partiu para solucionar o mistério que, por ora, continua sem solução — e muito provavelmente continuará assim, já que o mistério nem sequer existe.
E assim seguimos, caros leitores, sem saber de nada.
Continua...
| Mistério 2. |
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